
O número de divórcios tem vindo a aumentar, sendo várias as causas que podem levar ao rompimento da vida conjugal. No entanto, esta ruptura torna-se ainda mais difícil quando existem filhos em comum. Este é um processo que provoca na vida dos seus interlocutores um grande sofrimento, sentimentos de perda e abandono e de vazio. Quando uma criança se apercebe de que os seus pais se vão separar é natural que essa situação despolete todo o tipo de emoções. Muitos desses sentimentos serão vividos pela primeira vez, o que torna a situação ainda mais complicada. A criança confrontada pela separação parental é invadida por um sentimentos, que segundo Gerard Poussin e Elisabeth Lebrun (1999), provocam na criança reacções muito próximas à de um processo de luto.
Durante o período de choque, a criança é invadida por sentimentos que vão da recusa em enfrentar a realidade (“Ele vai voltar”) à revolta (“Porque é que eles me fizeram isto?”), à culpabilização (atribuição da causa do divórcio a si próprio), à tristeza, ao desgosto e à impotência. Segue-se um período de aceitação da realidade e finalmente, a criança acaba por adaptar-se à sua nova situação familiar. Estas reacções variam segundo a idade e a capacidade de integrar intelectual e afectivamente a realidade da nova situação familiar, mas, no entanto, a maior parte das crianças acaba por aceita-lo de forma satisfatória ao longo do tempo.
De forma a minorar os danos emocionais que podem advir deste processo, os adultos devem reflectir a sua forma de actuação, pois, são vários os erros cometidos pelos pais durante o decorrer divórcio e nos momentos posteriores a ele. Contidos pela sua própria angústia, muitos dos pais acabam por colocar os seus filhos no centro do conflito, ou mais grave, utilizam-no como arma contra o progenitor, não tendo a consciência, de que também eles sofrem durante todo este processo. Se para uma criança é difícil entender e conviver com esta nova realidade (e com as mudanças que ela acarreta), quando confrontado com a disputa dos seus progenitores, todo este processo se torna ainda mais doloroso emocionalmente.
Outro dos momentos críticos, refere-se ao pós-divórcio, onde começa a ocorrer uma tentativa de ajustamento à nova vida familiar. Este momento, é determinante para o bem-estar emocional dos filhos, sendo influenciado pela forma como os pais lidam posteriormente entre si e com os próprios filhos. Quanto maior for a cordialidade e a estabilidade na relação entre os progenitores após a separação, maior será a probabilidade de as crianças se ajustarem à nova família.
Outro dos erros praticados relaciona-se com o facto de perante a separação dos filhos, muitos pais se vêm a tomar atitudes compensatórias, na tentativa de amenizar o impacto desta decisão na gestão emocional da criança. Estas atitudes compensatórias e super protectoras que são tomadas tendem a prejudicar muito mais do que a separação propriamente dita. O divórcio não justifica, por parte dos pais, o descuido na imposição de limites ou a permissividade desmedida. Na realidade, mais do que compensar as crianças, os pais devem demonstrar que a criança continua a ocupar um lugar central nas suas vidas, para que esta, volte a confiar na sua capacidade de suscitar amor e projectar-se no futuro.
A ruptura do vínculo conjugal não deve, de modo algum, ameaçar o vínculo entre a criança e cada um dos pais, até porque, ambos os progenitores continuam a assumir um papel imprescindível no que se refere aos cuidados de educação, saúde, e às necessidades económicas, físicas e emocionais da criança. Aos pais deve caber sempre, o dever de proteger a criança durante todo este percurso, e nunca sobrepor as suas necessidades aos reais interesses da criança.
Técnica do Projecto Intervir.Com
Ana Carina Pereira – Psicóloga Educacional